sábado, 24 de maio de 2008

Freud Além da Alma

"A inteligência é o único meio que possuímos para dominar os nossos instintos."Freud

O filme Freud Além da Alma, criado em 1962, com a direção do famoso cineasta John Huston e produzido nos EUA, foi impactante na época de sua criação sendo considerado, até nos dias atuais um clássico. O filme aborda um dos momentos cruciais da trajetória do médico Freud, e por isso, é estudado nos âmbitos de ensino acadêmico, tanto pelas ciências exatas como a medicina, quanto pelas ciências humanas, dentre elas a Psicologia e a Pedagogia.

Sigmund Freud é considerado um dos grandes pensadores do século XX, por ter deflagrado um novo olhar nos estudos sobre o ser humano. Seus estudos desvelaram a importância do inconsciente na análise dos comportamentos e contribuíram significativamente para a cura de doenças mentais, por meio da psicanálise - ciência que inaugurou. Freud nasceu em 1856, falecendo em 1939. Em 1900, ele apresentou a primeira concepção sobre a estrutura e o funcionamento da personalidade. No filme, uma das cenas que mostra esse período é a que Freud assiste uma demonstração do tratamento dado aos doentes mentais do dr. Charcot, que realizava seus estudos sobre a histeria em Paris, por meio da hipnose. Dois pacientes que sofrem de histeria são hipnotizados pelo médico que sugere a eles que obedecendo a sua ordem deixem de apresentar os sintomas físicos que tinham no momento - em um dos pacientes a paralisia das pernas e em outro um tremor generalizado em todo corpo. A seguir, ainda sob os efeitos da hipnose, os mesmos pacientes, atendendo inconscientemente as ordens do médico, trocam suas enfermidades. Charcot explica aos médicos presentes, dentre eles Freud, que os sintomas das enfermidades só têm cura enquanto dura o efeito da hipnose. Nessa cena, é possível perceber a incredulidade dos médicos que a assistem, embora sejam discípulos de Charcot. Essa incredulidade é esperável, considerando a sociedade da época que era cartesiana, capitalista, voltada para a racionalidade. O afrontamento, além de social, era religioso, uma vez que a Igreja Católica não acolhia tais métodos e concepções. Sob esse ambiente conflituoso e de pouca liberdade brota os primeiros estudos do inconsciente por Freud, que apoiou-se nos experimentos de Charcot.

O penoso estudo iniciado por Freud foi interrompido, uma vez que ele sente o peso dos preconceitos advindos da sociedade e de seu mestre, além disso, ele receia as descobertas advindas de sua subjetividade. A interrupção é brevemente desconsiderada pelo próprio Freud que atende a um pedido de seu mestre. Na cena desse momento, Freud é chamado às pressas pelo mestre, dono do hospital, em que trabalhava no início da carreira e que o ridicularizava pelas idéias que defendia em seus estudos sobre o inconsciente. Ele está a beira da morte e pede para lhe falar. Freud não entende, a princípio porque aquele médico o chama, já que tinha tantas críticas às suas crenças profissionais. O antigo chefe, então, revela para Freud que também sofre de histeria, mal que escondeu de todos a vida inteira por medo de ser condenado a um manicômio ou ser tachado de louco, como sempre fez com os próprios pacientes que para ele não tinham cura. Ele pede para que Freud dê continuidade aos seus estudos, já que nessa época ele havia deixado-os de lado por medo das conclusões que estava obtendo. Diz ainda que os histéricos formam uma grande legião que vive à sombra, sofrendo profundamente deste mal, graças ao preconceito que certamente teriam que enfrentar, caso se manifestassem. O velho médico a beira da morte diz para Freud, que além de acreditar na validade científica do que vem estudando, se reconhece como um dos membros dessa legião: ele também sofreria de histeria, o que deixa o estudioso perplexo. Dizendo isso, morre.

O que existia na época de Freud permanece, mesmo atenuadamente, ainda hoje. É comum encontrarmos nas nossas famílias pessoas que comentam situações semelhantes às dos pacientes de Freud. Pessoas que tinham comportamentos como o choro sem motivo aparente, variação repentina de estado de humor - de apatia à euforia; prostração em estado de introspecção absoluta; ataques nervosos ( gritar, puxar os cabelos, etc), dentre outros. Essas pessoas, muitas vezes, eram consideradas loucas e tiradas do convívio familiar. Os médicos não tratavam as causas, mas sim apenas os sintomas, dando-lhes medicamentos que não tratavam mas que minimizavam os ataques.
Enquanto aprendizes da ciência Pedagogia, a cena mencionada, convida-nos também a discutir a relação mestre - aprendiz. O mestre de Freud, apresentava uma comportamento sistemático, inflexível e sarcástico em relação aos estudos de seu aluno. As hipóteses sobre os procedimentos do preceptor são várias e não excludentes, dentre elas entendemos que ele tinha medo da crítica da sociedade - uma vez que o desconhecimento do objeto em estudo era grande e muitos poderiam colocar em prova sua ação profissional; outra hipótese é a que o mestre se sentia profundamente incomodado por que ele próprio sofria da doença e não queria assumi-la.

Embora Freud tenha sofrido com o comportamento de seu preceptor, ele se sentia provocado a avançar em suas pesquisas. O mestre, dessa forma, representava um grande incomodador - questionador fundamental no método de reflexão, como explica Sócrates. Freud também é acometido pelas mesmas dúvidas: as críticas sociais e científicas; o temor do seu próprio inconsciente, e, ainda, o ciúmes que sua esposa tinha das pacientes que ele tratava, por isso hesitou. Estabelece-se aqui um conflito. Freud tinha como uma questão ética a importância de seus estudos para a humanidade, sabia que poderia contribuir grandemente na cura das doenças mentais, mas tinha medo. A moral da época lhe impunha algo bem diferente: a cura apenas do corpo; a não-liberdade de expressão; o abafamento da subjetividade; a formalidade nas relações familiares e profissionais; entre outras. Entendendo a ética como uma reflexão sobre a moral; Freud depara-se profundamente com uma pergunta: "eu sigo o que entendo como ético - bom - humano e assumo ser criticado, ironizado, tido como louco, ou atendo os preceitos morais da época em que vivo? "

Em outra cena marcante, Freud sonha com imagens distorcidas em que símbolos aparecem: uma cobra, sua mãe, todas dentro de uma caverna sinistra.

O sonho é envolto em uma atmosfera de mistério e terror. Sua mãe aparece como figura central deste sonho e uma cobra desliza sobre ela. Um menino observa a cena, entrando na caverna escura. Nessa cena percebemos como Freud vai construindo a relação entre sonho e inconsciente, ele começa a desvendar os seus significados a partir de suas experiências de vida.

Em nosso cotidiano, as relações que estabelecemos entre o sonho e a realidade são muito arbitrárias e abstratas, pois não temos um conhecimento aprofundado da psicanálise. A partir dos sonhos, nos indagamos sobre seu significado. Para alguns, os sonhos significam um bom presságio, por exemplo sonhar com doença traz saúde; sonhar com acidente é vida longa; outros até arriscam a sorte em diferentes jogos de azar. Muitas vezes, somos influenciados por pessoas que estão ao nosso redor - algumas nos dizem para esquecer os sonhos, outros que eles irão se realizar.

Como o filme, os estudos de Freud avançam. Numa outra cena, Freud desperta do sonho e tenta entender o seu significado. Ele começa um diálogo consigo mesmo no sentido de buscar relações de sentido entre o sonho e a sua vida consciente. Começa a se questionar: "porque minha mãe aparece no sonho? Será que a cobra de seu sonho tem relação com a pulseira espiralada que recebeu quando criança da própria mãe, para se acalmar numa noite em que ela preteriu sua companhia em relação a de seu pai? Porque ele não conseguira chorar quando seu pai morrera, se ele o queria tão bem? Será que esses sentimentos tinham alguma relação? E se tivessem, poderia pensar que haveria uma relação inconsciente entre ele, seu pai e sua mãe? A questão da sexualidade influenciaria nessa relação latente? A função sexual seria posterior à puberdade, como todos acreditavam na época?" Sua esposa então, vem em seu socorro e diz que ele estava apenas impressionado devido à recente morte do pai; que o sonho não tinha nenhum significado em especial, e que ele precisava apenas descansar.

A cena evidencia que Freud inicia um diálogo consigo mesmo - inaugurando o método de associação livre que mais tarde recebeu o nome de método catártico. Usando esse método com ele próprio e com seus pacientes, Freud então investiga a relação de amor e libido entre mãe e filho; pai e filha - dessa investigação ele desvela o complexo de Édipo. Mesmo na contemporaneidade, é fácil perceber o apego do menino pela mãe e sua identificação com o pai - a criança usa as ferramentas do pai, quer pegar um peixe do tamanho do peixe pescado pelo genitor, quer mostrar que é corajoso e forte, etc. Por outro lado, a menina usa as roupas e maquiagem da mãe, imita seus trejeitos, faz carinhos. Assim, o complexo de Édipo pelo qual todos nós passamos na infância é possível de ser percebido. Freud baseando nesse complexo, percebe que a sexualidade está presente em todas as fases da vida humana - desde a fecundação do óvulo até a morte. Ele atribui uma grande importância a essa sexualidade, afirmando que ela é determinante no desenvolvimento da personalidade. Posteriormente, Sigmund classifica o desenvolvimento psicossexual em cinco estágios: oral, anal, fálico, latência e genital. Essa classificação se dá com base nas áreas de mais prazer sexual que se alternam na vida do ser humano, sendo elas : boca, anus, pênis e vagina, todas e pênis e vagina, respectivamente.

O método catártico, mostra que nenhum comportamento existe por acaso, ou seja, todos têm uma causa que pode estar escondida no inconsciente. Você já se deparou com situações de simpatia e antipatia sem causa aparente? Por exemplo, aquele menino lá do fundo da sala que você não gosta e não sabe por quê; ou o contrário, aquela pessoa que lhe rejeita, sem que você não tenha feito nada contra ela. Aquela pessoa que você gosta tanto pode ter rosto, corpo ou comportamentos parecidos com uma pessoa que você conheceu e adorou - mas nem se lembra! A que você não gosta pode parecer com alguém que você não gosta! A simpatia e antipatia também podem ter causas no inconsciente. Nosso cérebro e alma fazem relações que se quer suspeitamos!

Sem dúvidas o filme nos acena para várias questões. Cada vez que o assistimos aprendemos coisas novas e às vezes nos deparamos com coisas antigas sob um novo olhar. O olhar de Freud ainda hoje é novo para nós! Ele nos chama a entender consciência e inconsciência; sonho e realidade, máquina e alma. Por meio da Psicanálise mostra-nos que os sonhos são as "janelas" da alma - neles nossos medos e desejos encontram vazão. Mostra-nos ainda que para entender o outro e a si mesmo, é preciso, antes, inaugurar o diálogo; mostra-nos que aprender é aprender com o outro. Com seu exemplo, vemos que fazer ciência não é uma tarefa fácil. Ele nos ensina que quando se é um desvelador, mais que a coragem de tirar o véu é necessária a coragem de mostrar a coisa descoberta. Coloca em evidência que a comunidade científica, poucas vezes, acolhe o verdadeiro cientista e seu conhecimento. Muitas vezes, o novo é ultrajante demais para o alcance de cabeças estabilizadas. O desarranjo da verdade nova traz um desarranjo social e, muitas vezes, moral. Para ser cientista é preciso coragem!

E então, Freud explica?


2 comentários:

Segundo disse...

Vc. tem algum parentesco com Sigmund?

Rogerio Floripa disse...

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